Pagamento em USDT por serviço prestado é rendimento tributável no mês em que você recebe, pelo valor de mercado em reais na data do recebimento, e vai para o carnê-leão quando o cliente é pessoa física ou está no exterior. Depois disso, o USDT vira um bem no seu patrimônio, com esse valor como custo, e a conversão futura em reais pode gerar ganho de capital. São duas pernas, com dois impostos diferentes.
O erro mais comum do freelancer que recebe em stablecoin é tratar o USDT como se fosse dólar guardado no exterior, ou pior, como se não fosse renda até virar real na conta. A Receita não vê assim. O serviço foi prestado, a remuneração foi paga, e o meio de pagamento não muda a natureza da renda. Ela é tributável no recebimento, ponto.
Neste artigo, separo as duas pernas com números: como declarar a renda do serviço, qual cotação usar, o que acontece quando você converte o USDT e o que muda conforme onde ele fica guardado.
Receber em USDT é renda ou é cripto?
É renda no dia em que chega e é cripto a partir do dia seguinte. A remuneração por serviço é rendimento do trabalho sem vínculo, tributável pela tabela progressiva do imposto de renda. O que você recebeu em pagamento é um criptoativo, que entra no seu patrimônio pelo valor que foi tributado como renda. As duas coisas coexistem no mesmo recebimento.
A DeCripto reconhece a operação: a IN RFB 2.291/2025 inclui, entre as transferências recebidas do art. 6º, inciso III, a alienação de bens ou serviços paga em criptoativo. Quando o total do mês fora de prestadora nacional passa de R$ 35 mil, o recebimento entra na DeCripto, com o hash e a identificação do pagador.
Quem paga também tem obrigações. Se o cliente é uma empresa brasileira, ela retém imposto na fonte como em qualquer pagamento a autônomo, e o pagamento em cripto não a dispensa disso. Se o cliente é pessoa física ou está no exterior, ninguém retém nada, e o recolhimento é todo seu, pelo carnê-leão.
Como declarar a renda do serviço?
Pelo carnê-leão, no mês do recebimento, quando o pagador é pessoa física ou está no exterior. O caminho:
- Converta o USDT em reais na data do recebimento: quantidade recebida vezes a cotação de venda do dólar divulgada pelo Banco Central no dia. Guarde a fonte;
- Lance o valor no Carnê-Leão Web, dentro do e-CAC, como rendimento recebido de pessoa física ou do exterior, no mês correspondente;
- Apure o imposto pela tabela progressiva mensal: em 2026, a faixa isenta vai até R$ 2.428,80 e as alíquotas sobem de 7,5% a 27,5%, com a redução da Lei 15.270/2025 para quem recebe até R$ 5 mil no mês;
- Recolha o DARF código 0190 até o último dia útil do mês seguinte;
- Recolha a contribuição ao INSS como contribuinte individual, de 20% sobre o rendimento até o teto, quando o pagador é pessoa física ou está no exterior.
Exemplo: 3.000 USDT recebidos em junho
Um exemplo. Você entregou um projeto para uma empresa dos Estados Unidos e recebeu 3.000 USDT em 10 de junho, num dia em que o dólar de venda fechou a R$ 5,40. Rendimento tributável de junho: R$ 16.200. Pela tabela mensal de 2026, o imposto é de 27,5% sobre R$ 16.200 menos a parcela a deduzir de R$ 908,73: R$ 3.546,27, no DARF 0190 com vencimento no último dia útil de julho.
Na declaração anual, esse valor entra como rendimento tributável recebido de pessoa física ou do exterior, e o carnê-leão pago aparece como imposto já recolhido.
Qual cotação eu uso para o USDT?
O valor de mercado em reais na data do recebimento. Como o USDT acompanha o dólar, a referência prática é a cotação de venda do dólar divulgada pelo Banco Central no dia, aplicada à quantidade recebida. A IN 2.291, no art. 10, dá a ordem de avaliação de um criptoativo: valor pago, pares de negociação, valor contábil, sites de cotação e estimativa razoável. Para stablecoin de dólar, a cotação oficial do dólar é a referência mais defensável.
A regra tradicional para rendimentos em moeda estrangeira manda converter pela cotação de compra do dólar do último dia útil da primeira quinzena do mês anterior. Ela foi feita para moeda, não para criptoativo, e a Receita não consolidou como aplicá-la a stablecoin. Na Blue, adotamos a leitura conservadora de valor de mercado na data, com a fonte documentada, e mantemos o mesmo critério em todo o histórico do cliente.
O Blue Cripto identifica os recebimentos em stablecoin na sua carteira, converte pela cotação do dia e gera o relatório do carnê-leão junto com o de ganho de capital. Comece grátis.
O que acontece quando eu converto o USDT em reais?
Nasce a segunda perna: o ganho de capital. O USDT entrou no seu patrimônio com custo igual ao valor tributado como renda. Quando você vende por reais, troca por outra cripto ou paga uma conta com ele, apura a diferença entre o valor da alienação e esse custo. A diferença é a variação do dólar entre o recebimento e a conversão.
Voltando ao exemplo: os 3.000 USDT entraram com custo de R$ 16.200. Em setembro, você vendeu tudo numa exchange nacional por R$ 16.800, com o dólar a R$ 5,60. Ganho de capital: R$ 600. Se foi a única alienação do mês, o total de R$ 16.800 ficou em até R$ 35 mil, e o ganho é isento, informado como rendimento isento na declaração anual. Se o dólar tivesse caído, haveria perda, sem imposto.
O regime depende de onde o USDT ficou guardado
O regime dessa segunda perna depende de onde o USDT estava no momento da venda:
| Onde o USDT ficou | Regime da conversão | Isenção de R$ 35 mil | Quando paga |
|---|---|---|---|
| Carteira própria ou exchange nacional | Ganho de capital mensal, 15% | Sim, pelo total vendido no mês | DARF 4600 no mês seguinte |
| Exchange no exterior (Binance, por exemplo) | Lei 14.754/2023, 15% fixo | Não | Na declaração anual |
Enquanto o USDT está guardado, ele é declarado na ficha de Bens e Direitos, grupo 08, código 03 (stablecoins), pelo custo de R$ 16.200, e não pelo valor de mercado em 31/12. A conversão de stablecoin em reais pode envolver ainda uma camada de custo à parte do imposto de renda, que tratei em IOF em stablecoin: a conta escondida do USDT.
E se eu usar o USDT direto para pagar contas?
É alienação do mesmo jeito. Pagar um fornecedor, comprar um equipamento ou converter em cartão pré-pago com o USDT recebido é uso do criptoativo como meio de pagamento, e o ganho ou a perda se apura na data do pagamento, pelo valor em reais do que foi pago. Cada uso é uma alienação, e todas somam no total do mês para a isenção.
O freelancer que recebe e gasta em USDT sem nunca passar por reais tem, ao fim do mês, dezenas de pequenas alienações. Elas raramente geram imposto, porque a variação do dólar em poucos dias é pequena e o total costuma caber na isenção, mas precisam constar da apuração e, acima de R$ 35 mil no mês fora de prestadora nacional, da DeCripto.
Vale a pena receber pela pessoa jurídica?
Muitas vezes, sim, e por um motivo que não é o USDT. A renda de serviço na pessoa física paga até 27,5% pela tabela progressiva; a mesma renda numa pessoa jurídica de serviços pode ter carga bem menor, conforme o regime. A escolha entre PF e PJ depende do volume anual, do custo fixo da empresa e de como a cripto vai ser tratada na tesouraria, e está detalhada em vale a pena abrir empresa para operar com cripto no Brasil.
O que a PJ não elimina é a segunda perna. O USDT recebido pela empresa entra no ativo dela e a variação até a conversão compõe o resultado tributável. Muda quem paga e quanto, não muda o fato de que a stablecoin tem custo e valor de saída.
Quais erros mais aparecem nesse caso?
Na Blue Consult, que apura Imposto de Renda Cripto desde 2018 com mais de 10.000 declarações processadas, os erros de quem recebe em stablecoin se repetem:
- Só declarar quando vira real. A renda é tributável no recebimento, ainda que o USDT fique parado por meses;
- Declarar o USDT como se fosse ganho de capital com custo zero. Isso troca a tabela progressiva pelo ganho de capital e é lido como omissão de renda;
- Usar a cotação da conversão em vez da cotação do recebimento para a renda;
- Esquecer o INSS de contribuinte individual;
- Somar as duas pernas num número só, misturando renda e ganho de capital na mesma ficha.
Quem recebeu cripto por herança, e não por trabalho, tem regras próprias, que explico em herdei criptomoedas: como declarar e quanto vou pagar. Conteúdo educativo não substitui serviço técnico.
Perguntas frequentes
Recebi pagamento em USDT: preciso pagar imposto no mês que recebi?
Sim. A remuneração por serviço é rendimento tributável no mês do recebimento, pelo valor de mercado em reais do USDT na data. Quando o pagador é pessoa física ou está no exterior, o imposto é recolhido pelo carnê-leão, DARF código 0190, até o último dia útil do mês seguinte, pela tabela progressiva.
Qual cotação uso para converter o USDT recebido?
O valor de mercado em reais na data do recebimento. Para stablecoin de dólar, a referência mais defensável é a cotação de venda do dólar divulgada pelo Banco Central no dia, aplicada à quantidade recebida. A IN RFB 2.291/2025, art. 10, admite pares de negociação e sites de cotação como fontes.
Vender o USDT depois gera outro imposto?
Pode gerar. O USDT entra no patrimônio com custo igual ao valor tributado como renda, e a venda apura ganho de capital sobre a variação até a conversão. Em carteira própria ou exchange nacional, vale a isenção de R$ 35 mil por mês; em exchange no exterior, o ganho segue a Lei 14.754/2023, com 15% na declaração anual.
Como declaro o USDT que ainda não converti?
Na ficha de Bens e Direitos, grupo 08, código 03 (stablecoins), pelo custo de aquisição, que é o valor declarado como renda no recebimento. Informe a quantidade, a data e o local de custódia. O valor de mercado em 31 de dezembro não entra na ficha.
Declare as duas pernas sem misturar
Receber em stablecoin é simples de operar e fácil de declarar errado. Se você recebe em cripto com frequência e ainda não separou renda de ganho de capital, fale com um contador especialista em cripto. Na Blue, registramos cada recebimento com cotação, montamos o carnê-leão e apuramos as conversões no regime certo. Declarar corretamente é proteger patrimônio.
Contador (CRC-DF 028007-O), fundador e CEO da Blue Consult, o maior escritório do Brasil especializado em Imposto de Renda de criptoativos. Desde 2018, a Blue processou mais de 10.000 declarações e analisou mais de R$ 5 bilhões em ativos digitais. Mychel também é cofundador da Tokeniza e mantém o maior acervo de conteúdo sobre IR Cripto do país, com mais de 1.700 vídeos publicados.