Bity encerra no Brasil: migrar muda o custo de aquisição?

Dois cofres de metal, um vazio e outro recebendo moeda dourada com etiqueta: migração de saldo entre corretoras

Não. Migrar da Bity para o Mercado Bitcoin não muda o seu custo de aquisição. A migração é a transferência do mesmo bem entre duas custódias do mesmo titular: não é alienação, não gera ganho de capital, não gera DARF e não zera o custo médio ponderado, que é seu e acompanha o ativo. O que pode mudar é o registro: a nova corretora informa à Receita o saldo e o custo de obtenção em 31/12 (IN RFB 2.291/2025, art. 7º), e se o custo chegar errado, só o seu extrato corrige. Já a conversão automática em reais, que a Bity aplica no fim do prazo, é venda.

A dúvida é de quem tem conta na Bity (Bitypreço ou Bitybank) e recebeu o aviso de encerramento. O app oferece a migração em poucos toques, e a pergunta natural é se o “botão” resolve também a parte fiscal. Não resolve. A migração leva o saldo; o histórico que prova quanto você pagou por ele fica com você.

Neste artigo, o que a Bity anunciou e com quais datas, por que migrar não é vender, o que acontece com o custo médio, a conta da conversão automática, o tratamento dos benefícios oferecidos a quem migra, a minha leitura do episódio e a lista do que exportar antes do prazo.

O que a Bity anunciou e quais são os prazos?

Segundo a Exame, em 2 de outubro de 2026, a Bity (antiga Bitybank) anunciou o fim das atividades de cripto para clientes no Brasil. A empresa informa cerca de 850 mil usuários e mais de R$ 1 bilhão em ativos sob custódia, e firmou acordo com o Mercado Bitcoin para atender a base. Segundo o Let’s Money, em 3 de outubro, os clientes podem transferir saldos desde o dia 2, com benefícios do Mercado Bitcoin até 29 de novembro de 2026.

O calendário

Os prazos de saque e de conversão aparecem de formas diferentes nas fontes. A Rankia, em 6 de outubro, publicou este calendário da Bity:

  • último dia para depositar reais por Pix: 8 de outubro;
  • último dia para depositar cripto: 15 de outubro;
  • ordens de compra e venda e saques em cripto: até 25 de novembro;
  • conversão automática do cripto restante em reais: 27 de novembro.

O Livecoins, em 2 de outubro, trata da Bitypreço e cita 27 de novembro como limite para sacar, transferir ou aceitar a migração para a Bipa, sem conversão automática. As fontes divergem sobre o que vale para cada marca: há quem separe a Bitybank (25 de novembro) da Bitypreço (27 de novembro), e a própria Rankia é inconsistente sobre o dia 18 de novembro. Por isso, a Blue não crava uma data só. Use a mais cedo, 25 de novembro, como limite seguro, e confirme no aplicativo da Bity qual é a sua.

Migrar para o Mercado Bitcoin é vender?

Não. Venda e permuta são alienações porque o bem sai do seu patrimônio em troca de outro valor. Na migração, o bitcoin que estava na Bity passa a estar no Mercado Bitcoin, em nome da mesma pessoa, na mesma quantidade. Transferência entre custódias do mesmo titular não é fato gerador, como mostra a lista de operações da Blue: compra com reais, transferência entre carteiras sem troca de espécie e recebimento de airdrop não são alienação.

O destino que você escolhe define o regime das vendas futuras, não o imposto da mudança:

Destino do saldo A mudança gera imposto? Regime da venda futura
Mercado Bitcoin (corretora nacional) Não Ganho de capital mensal, isenção de R$ 35 mil, DARF 4600
Outra corretora nacional Não O mesmo regime nacional
Carteira própria Não Nacional, com DeCripto se o mês passar de R$ 35 mil fora de prestadora nacional
Corretora no exterior Não Lei 14.754/2023: 15% na declaração anual, sem isenção
Conversão automática em reais Sim, é venda Apurada no mês da conversão

A Blue não indica corretora. A escolha é sua; aqui está o efeito fiscal de cada uma.

O custo de aquisição muda na migração?

Não, e o motivo é como o custo médio funciona. O custo médio ponderado soma todas as suas compras do ativo, em qualquer custódia, e divide pela quantidade total. Ele não pertence à corretora; pertence a você e ao bitcoin. A regra está em custo médio ponderado em cripto.

Onde está o risco de verdade

No registro da entrada. A prestadora informa à Receita o saldo de cada criptoativo e o custo de obtenção no fim do ano (IN RFB 2.291/2025, art. 7º). Quando o saldo chega por transferência, a nova corretora não tem as compras originais. Pode registrar a entrada ao valor de mercado do dia, ou sem custo algum. Nenhum dos dois é o seu custo, e a divergência se repete em cada venda futura.

A Rankia informa que a Bity emitirá os documentos exigidos nos prazos legais. Não dependa só disso: o extrato completo é a sua prova de custo, e a Bity deixará de existir como serviço.

Um exemplo com números

Marina tem 0,10 BTC na Bity. Comprou 0,04 BTC por R$ 8.000 e 0,06 BTC por R$ 21.000. O custo total é de R$ 29.000 e o custo médio é de R$ 290.000 por bitcoin (R$ 29.000 divididos por 0,10). Ela migra os 0,10 BTC para o Mercado Bitcoin. Ganho na migração: zero. Imposto: zero.

Meses depois, vende os 0,10 BTC por R$ 40.000 (valor ilustrativo) no mês em que não vendeu mais nada. O total vendido passa de R$ 35 mil, então o ganho todo é tributável.

  • Com o custo correto de R$ 29.000: ganho de R$ 11.000, imposto de 15%, ou R$ 1.650;
  • Com o custo registrado como zero: ganho de R$ 40.000, imposto de 15%, ou R$ 6.000.

A diferença é de R$ 4.350, e ela só desaparece se Marina tiver o extrato da Bity para provar os R$ 29.000. É por isso que a Blue trata o histórico como o ativo mais valioso da migração.

O Blue Cripto importa as corretoras pela API ou por CSV, preserva o custo médio na troca de custódia e reconhece a transferência entre contas suas como movimentação, não como venda. Comece grátis.

E se eu não fizer nada até o prazo?

O que sobrar vira reais. A Rankia informa que, em 27 de novembro, o cripto restante na Bity é vendido a preço de mercado e convertido em reais. A própria página da Bity, segundo a Rankia, afirma que a conversão automática é uma venda e entra na apuração do Imposto de Renda. É a leitura correta: o que importa é o que aconteceu com o bem, não quem apertou o botão.

No exemplo de Marina, se os 0,10 BTC fossem convertidos em 27 de novembro por R$ 40.000, o ganho seria de R$ 11.000 e o DARF código 4600, de R$ 1.650, venceria no último dia útil de dezembro. A isenção de R$ 35 mil depende do total de vendas do mês em todas as exchanges nacionais, e a conversão conta nesse total. O caso completo, com a conta nos dois regimes, está em a corretora converteu meu saldo: conversão é venda?

Os benefícios para quem migra pagam imposto?

Depende do benefício, e a resposta honesta é que a norma não trata cada um. Segundo a Exame, o Mercado Bitcoin oferece a quem migrar período maior sem taxa de compra e venda, rendimentos especiais em renda fixa digital, staking e um assessor para custódias altas. Isenção de taxa não é renda: é um custo que você deixa de pagar. Bônus recebidos em cripto, cashback e rendimentos têm tratamento próprio, que a Blue explica em referral, cashback e bônus de exchange: é renda?

Na leitura conservadora da Blue, registre qualquer valor recebido em cripto por causa da migração, com data, quantidade e cotação do dia. Se o benefício vier em reais ou em desconto, guarde o comprovante. A natureza fiscal de cada benefício é questão a analisar caso a caso, com a documentação do programa.

Minha leitura do episódio

A Bity não é a primeira. A Exame lista NovaDAX, Digitra, Coinext e Bitso na mesma onda de saídas, ligada ao prazo de 30 de outubro de 2026 para pedir autorização ao Banco Central (Resoluções BCB 519, 520 e 521/2025), como explica Resolução BCB 519: precisa de autorização até 30/10? Para o investidor pessoa física, a regulação não altera alíquota, isenção nem obrigação de IR.

O que me preocupa não é o fechamento, é a pressa. O investidor aceita a migração com um toque, e o extrato que provaria o custo some junto com o serviço. Migrar é decisão operacional. Perder o histórico é decisão fiscal, quase sempre involuntária.

O que fazer antes do prazo?

Em ordem, porque a ordem importa:

  1. Exporte o histórico completo da Bity em CSV e PDF: negociações, depósitos e saques em reais, depósitos e saques de cripto, rendimentos e informes;
  2. Guarde o comunicado de encerramento, que documenta por que você moveu tudo naquele mês;
  3. Escolha o destino: Mercado Bitcoin, Bipa, outra corretora ou carteira própria;
  4. Faça a transferência antes do dia 25 de novembro e confira se a quantidade chegou igual;
  5. Anote a data e a quantidade da transferência como “movimentação entre custódias próprias”, e não como venda;
  6. Atualize a discriminação em Bens e Direitos na declaração anual, com a nova custódia e o custo original.

A lista de documentos que sustentam uma apuração está em qual documento comprova transação cripto para a Receita.

Quais são os erros mais comuns?

Na Blue Consult, que apura Imposto de Renda Cripto desde 2018 com mais de 10.000 declarações processadas, os erros de quem passa por um encerramento se repetem:

  • Confiar que a nova corretora “herda” o custo. Ela herda o saldo; o custo é seu e precisa de prova;
  • Deixar a conversão automática acontecer sem apurar. A venda existiu, mesmo sem ordem sua, e o DARF vence no mês seguinte;
  • Tratar a migração como venda e pagar imposto indevido. Não há ganho na transferência entre custódias suas;
  • Esquecer a DeCripto. Se o saldo for para carteira própria ou para exchange no exterior, o mês que passar de R$ 35 mil entra na DeCripto. A multa de atraso da pessoa física é de R$ 100 por mês (IN RFB 2.291/2025, art. 13).

Conteúdo educativo não substitui serviço técnico. No mesmo dia, publicamos a análise de outro encerramento com prazo em 30 de outubro, o do bitcoin no app da Méliuz.

Perguntas frequentes

Migrar da Bity para o Mercado Bitcoin gera imposto?

Não. A migração é transferência do mesmo bem entre duas custódias do mesmo titular, e não há alienação nem ganho de capital. O imposto só aparece na venda futura, ou na conversão automática em reais, que é venda. A regra de alienação está na IN RFB 2.291/2025 e na prática da apuração do ganho de capital.

O custo de aquisição do meu bitcoin muda ao migrar?

Não. O custo médio ponderado é seu e acompanha o ativo em qualquer custódia. O risco é a nova corretora registrar a entrada sem o custo original. Como a prestadora informa saldo e custo em 31/12 (IN RFB 2.291/2025, art. 7º), guarde o extrato da Bity para provar o valor correto.

A conversão automática da Bity conta como venda?

Sim. Segundo a Rankia, em 6 de outubro de 2026, a própria Bity informa que a conversão automática em reais é uma venda e entra na apuração. O ganho é a diferença entre o valor convertido e o custo médio, no mês da conversão, com DARF 4600 se as vendas do mês passarem de R$ 35 mil.

Preciso migrar para o Mercado Bitcoin?

Não. A migração é opcional: você pode transferir para outra corretora, levar para carteira própria ou vender e sacar em reais antes do prazo. Em qualquer caminho, exporte o histórico antes, porque o extrato é a prova do custo. A escolha do destino muda o regime das vendas futuras, não o imposto da mudança.

Migrar é simples. Provar o custo é o que dá trabalho

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