Sim. A conversão automática que a corretora faz no encerramento é alienação, mesmo sem ordem sua. Converter cripto em reais, como a Coinext fará a partir de 26 de outubro, é venda. Converter cripto em USDT, como a CoinEx fez em 29 de setembro, é permuta, e permuta também é alienação. O ganho é a diferença entre o valor na data da conversão e o custo médio ponderado do que saiu, apurado no mês da conversão. Na Coinext, corretora nacional, vale a isenção de R$ 35 mil somando todas as vendas do mês em exchanges nacionais, com DARF código 4600 acima dela. Na CoinEx, exchange no exterior, vale a Lei 14.754/2023: 15% na apuração anual, sem isenção.
A dúvida é de quem não fez nada e, mesmo assim, aparece com um evento tributável no extrato. O investidor deixou o saldo parado, a corretora anunciou o fim, o prazo passou e o bitcoin virou reais ou USDT. A sensação é de que “não vendi”. Para a Receita, vendeu: o bem saiu do patrimônio em troca de outro valor, na data e no preço da conversão.
Neste artigo, por que a conversão conta como venda, a conta nos dois regimes com exemplos, o que fazer antes da data na Coinext, o que fazer depois da conversão na CoinEx e os erros de quem trata o evento como se não existisse.
Por que a conversão automática conta como venda?
Porque o que define a alienação é o que acontece com o bem, e não quem apertou o botão. Antes da conversão, você tinha bitcoin. Depois dela, tem reais ou USDT. O bitcoin saiu do seu patrimônio por um valor, e a diferença entre esse valor e o custo de aquisição é ganho ou perda de capital.
A regra para cripto não depende do meio:
- Venda de cripto por reais é alienação;
- Permuta entre criptos, como bitcoin por ether, é alienação;
- Conversão para stablecoin, como bitcoin por USDT, é alienação, porque é permuta;
- Transferência do mesmo ativo para outra custódia sua não é alienação.
A conversão automática cai no item 1 ou no item 3. Não existe categoria de “venda involuntária” que dispense a apuração. O que muda é que você não escolheu o momento nem o preço.
O custo usado é o custo médio ponderado do ativo, que soma todas as compras e é o mesmo em qualquer custódia sua. Não é o custo “das moedas que estavam na Coinext”: se você tem bitcoin em duas corretoras, o custo médio é um só. A regra está em custo médio ponderado em cripto.
Quais são os cronogramas?
Os dois encerramentos têm datas diferentes, e a semelhança dos nomes confunde. Segundo o InfoMoney, em 4 de setembro de 2026, a Coinext anunciou em 3 de setembro a suspensão de depósitos e cadastros, compra e venda até 15 de outubro, saque em cripto até 20 de outubro, conversão automática para reais a partir de 26 de outubro e devolução dos ativos até 30 de novembro.
A CoinEx, exchange global e outra empresa, suspendeu cadastros em 15 de setembro e, pelo cronograma que divulgou, converteu os saldos em USDT em 29 de setembro, com saques até 22 de dezembro. A separação entre as duas está em CoinEx ou Coinext: duas corretoras, dois prazos de saque.
Como fica a conversão na Coinext?
No regime nacional. A conversão em reais entra no total de vendas do mês em que acontecer, somada a todas as vendas feitas em qualquer exchange nacional, de qualquer cripto. Se o total do mês ficar em até R$ 35 mil, o ganho é isento e vai para rendimentos isentos na declaração anual. Se passar, todo o ganho do mês é tributável, não só o excedente, a 15% até R$ 5 milhões de ganho, no DARF código 4600, até o último dia útil do mês seguinte.
Exemplo: a conversão que estoura a isenção
Ana tem 1,5 ETH na Coinext, com custo médio de R$ 12.000 por ETH, ou seja, custo de R$ 18.000. A conversão acontece em outubro a R$ 16.000 por ETH: Ana recebe R$ 24.000 e tem ganho de R$ 6.000.
Sozinha, a conversão ficaria dentro da isenção. Mas Ana também vendeu R$ 15.000 em bitcoin em outra exchange nacional em outubro, com ganho de R$ 3.000. O total de vendas do mês vai a R$ 39.000, acima de R$ 35 mil. O ganho do mês inteiro, R$ 9.000, fica tributável: 15% dá R$ 1.350, no DARF 4600 que vence em 30 de novembro de 2026.
Se a conversão tivesse gerado perda, ela abateria o ganho do bitcoin dentro do mesmo mês. Entre meses diferentes, a leitura conservadora da Receita não admite compensação no regime nacional. O uso do limite está em isenção de R$ 35 mil em cripto: como usar o limite mensal.
Um detalhe de data: o cronograma diz “a partir de 26 de outubro”. O mês da alienação é o da conversão efetiva. Se ela cair em novembro, a apuração é de novembro. Guarde o comprovante da conversão, com data, quantidade e preço.
Como fica a conversão na CoinEx?
No regime do exterior. A troca de cripto por USDT é permuta, e o ganho entra na apuração anual da Lei 14.754/2023, a 15%, na declaração de ajuste. Não há isenção de R$ 35 mil, qualquer que seja o valor, e não há DARF mensal. Em compensação, perdas com aplicações no exterior no mesmo ano abatem o ganho.
Exemplo: a permuta que ninguém pediu
Bruno tinha 0,05 BTC na CoinEx, com custo médio de R$ 250.000 por BTC, ou seja, custo de R$ 12.500. Em 29 de setembro, a plataforma converteu o saldo em USDT. Com o bitcoin a R$ 600.000, valor ilustrativo, Bruno recebeu o equivalente a R$ 30.000 em USDT. O ganho é de R$ 17.500.
O ganho vai para a apuração anual de 2026. Se Bruno não tiver perdas no exterior no ano para compensar, o imposto é de R$ 2.625 (15% de R$ 17.500), na declaração entregue em 2027. O fato de a permuta ter ficado abaixo de R$ 35 mil não muda nada: a isenção mensal não existe no regime do exterior.
O USDT recebido passa a ter custo de aquisição de R$ 30.000, o valor da permuta. Sacar esse USDT para outra custódia depois é transferência, sem ganho. A regra do regime está em como declarar cripto em exchange no exterior.
A DeCripto de setembro
A permuta na CoinEx é operação por prestadora estrangeira e entra na DeCripto de setembro, pela IN RFB 2.291/2025, se o total das operações do mês fora de prestadora nacional passar de R$ 35 mil. No caso de Bruno, a permuta sozinha não passa. Se ele tiver sacado outros R$ 10 mil para carteira própria no mesmo mês, passa, e a entrega vence em 30 de outubro de 2026. A multa de atraso da pessoa física é de R$ 100 por mês.
| Aspecto | Coinext (nacional) | CoinEx (exterior) |
|---|---|---|
| Tipo de conversão | Cripto para reais: venda | Cripto para USDT: permuta |
| Quando se apura | No mês da conversão | No ano da conversão |
| Isenção de R$ 35 mil | Sim, somando todas as vendas do mês em exchanges nacionais | Não se aplica |
| Alíquota | 15% a 22,5% sobre o ganho | 15% sobre o resultado anual |
| Recolhimento | DARF 4600 até o último dia útil do mês seguinte | Na declaração anual |
| Compensação de perdas | Só dentro do mês, na leitura conservadora | Dentro do ano, com aplicações no exterior |
O Blue Cripto importa o extrato da corretora que fechou, aplica o custo médio de cada ativo e mostra o ganho da conversão no regime certo. Comece grátis.
O que fazer antes da conversão na Coinext?
Decidir, enquanto ainda dá. Deixar converter é uma venda em data e preço escolhidos pela corretora. Sacar a cripto é manter o bem, e o momento de uma venda futura continua sendo seu. Nenhuma das duas escolhas é errada; errado é não escolher.
- Exporte os extratos antes de qualquer saque: negociações, depósitos e saques em reais e em cripto, desde a abertura da conta. São a prova do custo;
- Se quer manter a cripto, saque até 20 de outubro para outra corretora ou para a sua carteira. É transferência do mesmo bem, sem ganho e sem imposto;
- Confira a DeCripto do mês do saque, se ele for para carteira própria ou exchange no exterior e o mês passar de R$ 35 mil fora de prestadora nacional;
- Se vai deixar converter, some as outras vendas de outubro em exchanges nacionais, para saber se a isenção se mantém;
- Guarde o comunicado de encerramento, que explica a movimentação atípica do mês.
O passo a passo do saque, com o que exportar e em que formato, está em a corretora vai fechar: como sacar sem perder o histórico.
E se a conversão já aconteceu?
Então o evento existe e precisa ser apurado. É o caso de quem tinha saldo na CoinEx em 29 de setembro, e será o de quem deixar saldo na Coinext depois de 20 de outubro. Três providências:
- Registre a conversão com data, quantidade de cada ativo e valor recebido, pelo extrato da própria corretora;
- Apure o ganho pelo custo médio, no regime certo: mensal na Coinext, anual na CoinEx;
- Retire o saldo dentro do prazo: na CoinEx, até 22 de dezembro; na Coinext, a devolução está prevista até 30 de novembro.
Na declaração anual, o bitcoin convertido sai de Bens e Direitos. Na CoinEx, entra o USDT, no código 03, pelo custo de R$ 30 mil do exemplo. Na Coinext, o valor vira saldo em reais, devolvido à sua conta bancária. A stablecoin que a CoinEx entregou é o mesmo tipo de ativo que, do lado das prestadoras brasileiras, passou a ser câmbio, tema de mesa que converte Pix em USDT: por que a Resolução 521 exige câmbio.
Quais erros aparecem nesses casos?
Na Blue Consult, que apura Imposto de Renda Cripto desde 2018 com mais de 10.000 declarações processadas, os erros da conversão automática são sempre os mesmos:
- Tratar a conversão como “não venda” porque não houve ordem do cliente;
- Olhar só a conversão para a isenção, esquecendo as outras vendas do mês em exchanges nacionais;
- Aplicar a isenção de R$ 35 mil à CoinEx, que é exterior;
- Usar como custo o preço de uma compra em vez do custo médio ponderado;
- Declarar o USDT recebido com custo zero, o que tributa de novo o mesmo ganho quando ele for vendido.
Conteúdo educativo não substitui serviço técnico. A Blue não indica corretora nem diz se vale mais sacar ou deixar converter: apura o que aconteceu.
Perguntas frequentes
A conversão automática da corretora é venda para a Receita?
Sim. Converter cripto em reais é venda, e converter cripto em stablecoin é permuta, que também é alienação. O ganho é apurado pelo custo médio ponderado, no mês da conversão, mesmo que você não tenha dado a ordem.
A conversão da Coinext tem isenção de R$ 35 mil?
Pode ter. A Coinext é corretora nacional, e a conversão em reais entra no total de vendas do mês em todas as exchanges nacionais. Se esse total ficar em até R$ 35 mil, o ganho é isento; se passar, todo o ganho do mês paga 15% no DARF código 4600, até o último dia útil do mês seguinte.
A conversão da CoinEx para USDT paga imposto?
Sim, se houver ganho. A CoinEx é exchange no exterior, e a permuta de cripto por USDT entra na apuração anual da Lei 14.754/2023, a 15%, sem isenção de R$ 35 mil. Perdas com aplicações no exterior no mesmo ano compensam o ganho.
Sacar a cripto antes da conversão gera imposto?
Não. Transferir o mesmo ativo para outra corretora ou para a sua carteira é mudança de custódia, sem alienação. O custo médio acompanha o ativo. Se o destino for carteira própria ou exchange no exterior e o mês passar de R$ 35 mil nessas operações, o saque entra na DeCripto, pela IN RFB 2.291/2025.
Apure a venda que você não fez
A corretora escolheu a data e o preço, mas o imposto é seu. Se o seu saldo foi convertido, ou vai ser, e você não sabe em que regime nem quanto pagar, fale com um contador especialista em cripto. Cripto não dá erro pequeno. Dá erro caro.
Contador (CRC-DF 028007-O), fundador e CEO da Blue Consult, o maior escritório do Brasil especializado em Imposto de Renda de criptoativos. Desde 2018, a Blue processou mais de 10.000 declarações e analisou mais de R$ 5 bilhões em ativos digitais. Mychel também é cofundador da Tokeniza e mantém o maior acervo de conteúdo sobre IR Cripto do país, com mais de 1.700 vídeos publicados.