A discriminação de cripto em Bens e Direitos precisa dizer quatro coisas: qual ativo, quanta quantidade em 31 de dezembro, onde está custodiado e qual o custo de aquisição em reais. Um modelo que funciona para bitcoin em exchange nacional é: “0,5 BTC (bitcoin) custodiados na exchange Mercado Bitcoin, CNPJ 11.111.111/0001-11, adquiridos entre 2023 e 2025, custo total de aquisição de R$ 150.000,00.” Abaixo estão os modelos para cada código do grupo 08 e para cada tipo de custódia, prontos para copiar e adaptar.
A ficha de Bens e Direitos é a parte da declaração que a Receita cruza com o que as prestadoras reportam, e a discriminação é o único campo em que você explica o que o número significa. Discriminação vaga (“criptomoedas”) não é erro por si, mas é a primeira coisa que um auditor lê quando os dados não batem. Discriminação completa é o que faz o cruzamento fechar sem pergunta.
Neste artigo, entrego os modelos por código, por custódia e por situação especial (herança, doação, mútuo, perda), com as regras de valor que valem para todos, e os erros que transformam uma ficha correta numa inconsistência.
Quais regras valem para todas as discriminações?
- Uma linha por tipo de ativo, com o código do grupo 08: 01 bitcoin, 02 altcoins, 03 stablecoins, 10 NFTs, 99 outros. Ativos do mesmo código podem ser agrupados, mas a discriminação lista cada um;
- Valor pelo custo de aquisição, em reais, nunca pelo valor de mercado. Compras em dólar ou stablecoin são convertidas pela cotação de venda do dólar do Banco Central na data de cada compra;
- Obrigatório a partir de R$ 5 mil de custo por tipo de ativo; abaixo disso, facultativo e recomendado;
- Quantidade em 31/12, com todas as casas decimais que o ativo usa;
- Custódia identificada: nome e CNPJ da prestadora nacional, nome e país da estrangeira, ou “carteira própria” com o tipo (hardware, software), sem endereço público;
- Localização: Brasil para exchange nacional e carteira própria de residente; o país da prestadora para exchange no exterior.
O campo “situação em 31/12 do ano anterior” repete o valor da declaração anterior. Se ele não bate com o que você declarou no ano passado, a retificadora vem antes desta ficha.
Modelos por código do grupo 08
Código 01: bitcoin
“0,35 BTC (bitcoin) custodiados na exchange [nome], CNPJ [número], adquiridos entre [mês/ano] e [mês/ano] por meio de [número] compras. Custo total de aquisição: R$ 98.400,00.”
Código 02: altcoins
“4,2 ETH (ether) e 120 SOL (solana) custodiados na exchange [nome], CNPJ [número]. Custo de aquisição: ETH R$ 52.000,00, SOL R$ 18.000,00. Custo total: R$ 70.000,00.”
Código 03: stablecoins
“12.000 USDT (tether) custodiados na exchange [nome], constituída em [país]. Adquiridos por conversão de reais e de outros criptoativos entre [mês/ano] e [mês/ano], convertidos pela cotação de venda do dólar do BCB na data de cada aquisição. Custo total: R$ 63.500,00.”
Código 10: NFTs
“2 tokens não fungíveis da coleção [nome], rede [Ethereum], custodiados em carteira própria de software, adquiridos em [mês/ano]. Custo de aquisição, incluída a taxa de rede: R$ 9.800,00.”
Código 99: outros criptoativos
“1.500 tokens [nome], rede [rede], custodiados em carteira própria, recebidos em [mês/ano] por [airdrop / recompensa de staking]. Custo de aquisição: R$ 0,00, tributação na alienação.”
Token recebido sem pagamento entra com custo zero na leitura de ganho de capital, e a discriminação diz isso. O tratamento está em como calcular imposto de staking, airdrop e recompensa de DeFi.
O Blue Cripto gera o relatório de Bens e Direitos com quantidade, custo e custódia por ativo, pronto para copiar na ficha. Comece grátis.
Modelos por tipo de custódia
Exchange nacional
“[quantidade] [ativo] custodiados na exchange [nome], CNPJ [número]. Custo de aquisição: R$ [valor].” Localização: Brasil.
Exchange no exterior
“[quantidade] [ativo] custodiados na plataforma [nome], constituída em [país], conta em nome do declarante. Custo de aquisição em reais, convertido pela cotação de venda do dólar do BCB na data de cada compra: R$ [valor].” Localização: o país da prestadora. As regras desse regime estão em como declarar cripto em exchange no exterior.
Carteira própria
“[quantidade] [ativo] em carteira própria de [hardware / software], rede [rede], sob custódia do declarante. Transferidos da exchange [nome] em [mês/ano]. Custo de aquisição: R$ [valor].” Localização: Brasil. Sem endereço público, que só é exigido sob intimação (art. 17 da IN RFB 2.291/2025), como explico em preciso declarar cripto na Ledger ou na MetaMask.
Vários lugares, mesmo ativo
Uma linha só, com o total, e a discriminação separando: “1,2 BTC, sendo 0,8 BTC na exchange [nome], CNPJ [número], e 0,4 BTC em carteira própria de hardware. Custo médio ponderado consolidado de R$ 140.000,00 por BTC. Custo total: R$ 168.000,00.” O custo médio é um só para o ativo, em todas as custódias, como em custo médio ponderado em cripto.
Modelos para situações especiais
Recebida por herança
“0,5 BTC recebidos por herança de [nome], CPF [número], falecido em [data], partilha homologada em [data], transferidos pelo valor constante da declaração final de espólio. Custo de aquisição: R$ [valor].”
Recebida por doação
“2 ETH recebidos em doação de [nome], CPF [número], em [data], pelo valor constante da declaração do doador. Custo de aquisição: R$ [valor]. ITCMD recolhido em [data].”
Emprestada a terceiro (mútuo)
Na linha do ativo, a quantidade que ficou. Em créditos: “Direito a receber 1 ETH emprestado a [nome], CPF [número], por contrato de mútuo de [data], devolução prevista em [data]. Valor pelo custo de aquisição: R$ [valor].”
Acesso perdido
“0,1 BTC em carteira própria de hardware com acesso perdido desde [data], em tentativa de recuperação. Custo de aquisição: R$ [valor].” Quando a perda for definitiva, a linha sai, com a discriminação da baixa no ano.
Recebida por serviço ou salário
“3.600 USDT recebidos como remuneração por serviços prestados a [nome/empresa] entre [mês/ano] e [mês/ano], rendimentos declarados no carnê-leão. Custo de aquisição igual ao valor tributado: R$ [valor].”
Como preencher o campo de valor quando comprei em várias datas?
Somando o custo de cada lote em reais. Quem comprou 0,1 BTC por R$ 30.000 em 2023, 0,1 BTC por R$ 45.000 em 2024 e 0,1 BTC por R$ 60.000 em 2025 tem 0,3 BTC com custo total de R$ 135.000 e custo médio de R$ 450.000 por BTC. A ficha recebe R$ 135.000, e a discriminação pode citar o período das compras e o número de lotes.
Quando parte foi vendida, o custo que fica é proporcional: vendidos 0,1 BTC, restam 0,2 BTC com custo de R$ 90.000, pelo custo médio, e não pelo custo do lote mais antigo ou mais novo. É a regra que impede escolher qual bitcoin foi vendido, e é a que a Receita aplica.
O campo “situação em 31/12 do ano atual” recebe o custo do que ficou; a diferença para o ano anterior precisa corresponder a compras (com origem nos rendimentos) ou a vendas (com ganho apurado no GCAP). É essa aritmética que a Receita confere antes de qualquer outra.
O que a discriminação não deve ter?
- Valor de mercado. Nem no campo de valor, nem no texto. A ficha registra custo;
- Endereço público de carteira, que não é exigido e expõe o saldo;
- Frase-chave, senha ou qualquer segredo, o que parece óbvio e já aconteceu;
- Texto genérico como “criptomoedas diversas” sem ativo, quantidade e custódia;
- Cotação de 31/12 como se fosse custo.
A ficha que a Receita cruza com a DeCripto e com o reporte das prestadoras é esta. A entrega anual de saldos da DeCripto, em janeiro, informa a mesma quantidade em 31/12 e o mesmo custo, e as duas precisam bater, como explico em a segunda DeCripto: como transformar a entrega em rotina.
Quais erros aparecem na ficha?
Na Blue Consult, que apura Imposto de Renda Cripto desde 2018 com mais de 10.000 declarações processadas, os erros de Bens e Direitos se repetem:
- Declarar pelo valor de mercado, inflando o patrimônio e criando variação sem origem;
- Uma linha por exchange em vez de uma por ativo, com custo médio separado por lugar;
- Esquecer a carteira própria depois da transferência, o que a Receita lê como venda;
- Stablecoin no código 02, que é o das altcoins;
- Situação do ano anterior diferente da declaração anterior, sem retificadora.
Conteúdo educativo não substitui serviço técnico. Os modelos são ponto de partida; os números são os do seu histórico.
Perguntas frequentes
O que escrever na discriminação de criptomoedas no Imposto de Renda?
O ativo e a quantidade em 31/12, a custódia (nome e CNPJ da exchange nacional, nome e país da estrangeira, ou carteira própria com o tipo), o período de aquisição e o custo total em reais. Exemplo: “0,35 BTC custodiados na exchange X, CNPJ Y, adquiridos entre 2023 e 2025, custo total de aquisição R$ 98.400,00.”
Preciso informar o endereço da carteira em Bens e Direitos?
Não. A ficha pede a identificação do bem e da custódia, e o endereço público não é campo obrigatório. A DeCripto (IN RFB 2.291/2025, art. 17) só exige o endereço da carteira quando o contribuinte é intimado em procedimento fiscal.
Declaro cada exchange numa linha separada?
Não. A linha é por tipo de ativo, com o código do grupo 08, e a discriminação separa as custódias. O custo médio ponderado do ativo é um só, consolidado entre todas as exchanges e carteiras, e transferência entre elas não o altera.
Qual valor uso para cripto comprada em dólar?
O custo de aquisição em reais, convertido pela cotação de venda do dólar divulgada pelo Banco Central na data de cada compra. O valor de mercado em 31/12 não entra na ficha. A discriminação pode informar que a conversão seguiu esse critério.
Preencha a ficha que a Receita vai cruzar
Bens e Direitos é a ficha que fala pela sua carteira quando você não está lá. Se o seu histórico tem vários ativos, custódias e origens, e a discriminação de cada linha nunca foi escrita com esse cuidado, fale com um contador especialista em cripto. Declarar corretamente é proteger patrimônio.
Contador (CRC-DF 028007-O), fundador e CEO da Blue Consult, o maior escritório do Brasil especializado em Imposto de Renda de criptoativos. Desde 2018, a Blue processou mais de 10.000 declarações e analisou mais de R$ 5 bilhões em ativos digitais. Mychel também é cofundador da Tokeniza e mantém o maior acervo de conteúdo sobre IR Cripto do país, com mais de 1.700 vídeos publicados.