Uma prestadora de serviços de ativos virtuais autorizada pelo Banco Central escritura como instituição financeira: contabilidade no padrão Cosif, o plano contábil das instituições do Sistema Financeiro Nacional, com balancetes periódicos enviados ao Banco Central, demonstrações auditadas por auditor independente registrado e segregação contábil e operacional entre os ativos da empresa e os dos clientes. É uma exigência das Resoluções BCB 519 e 520/2025 para a autorização e para a operação, e é o que separa a contabilidade de uma mesa OTC de hoje da contabilidade que ela precisa ter para existir depois de 30 de outubro de 2026.
A maioria das operações de cripto que atende terceiros nasceu com a contabilidade de uma empresa comum: lucro presumido, um contador generalista, balanço anual, cripto lançada de qualquer jeito ou nem lançada. O Banco Central não aceita isso de uma instituição que ele supervisiona. E a diferença entre os dois padrões não é de detalhe: é de plano de contas, de periodicidade, de quem assina e do que precisa estar separado.
Neste artigo, explico o que é o Cosif e por que ele importa, o que a segregação patrimonial exige na prática, o que a auditoria independente confere, como a cripto entra no balanço de uma PSAV, o que isso custa e o que fazer com o histórico anterior.
O que é contabilidade no padrão Cosif?
Cosif é o Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional, o conjunto de regras contábeis, plano de contas e modelos de demonstrações que bancos, corretoras, distribuidoras e instituições de pagamento seguem por determinação do Banco Central. Ele define como cada operação é classificada, como os ativos são avaliados, quais balancetes são enviados ao regulador e com que frequência.
A Resolução BCB 519/2025 exige, entre os requisitos do pedido de autorização, a adoção do padrão contábil Cosif. Na prática, isso significa que a PSAV deixa de ter a contabilidade de uma empresa comercial e passa a ter a de uma instituição supervisionada:
| Aspecto | Empresa comum (hoje) | PSAV autorizada (Cosif) |
|---|---|---|
| Plano de contas | Livre, definido pelo contador | Padronizado pelo Banco Central |
| Periodicidade | Balanço anual; balancetes internos | Balancetes mensais ao Banco Central; demonstrações semestrais e anuais |
| Auditoria | Facultativa na maioria dos regimes | Obrigatória, por auditor independente registrado |
| Ativos de clientes | Misturados ao caixa, conforme o caso | Segregados, em contas e carteiras apartadas |
| Quem responde | Contador da empresa | Administradores, com responsabilidade regulatória |
A adoção do Cosif não é uma escolha de regime fiscal: a PSAV continua apurando IRPJ e CSLL pelo lucro real, que é o regime das instituições financeiras. O enquadramento tributário está em qual o melhor CNAE e regime tributário para PJ cripto.
O que a segregação patrimonial exige na prática?
Que os recursos e os ativos dos clientes não se misturem aos da prestadora, em nenhum momento e em nenhum registro. A Resolução BCB 520/2025 trata a segregação como regra de funcionamento da SPSAV, e ela tem três camadas:
- Operacional: os reais dos clientes ficam em contas separadas das da empresa, e a cripto dos clientes fica em carteiras apartadas das carteiras de tesouraria;
- Contábil: os ativos de clientes aparecem no balanço em contas próprias, de forma que o patrimônio da prestadora e o dos clientes sejam identificáveis a qualquer momento;
- Jurídica: numa quebra, os ativos segregados não entram na massa da prestadora; pertencem aos clientes.
A segregação também muda o produto: a mesa que hoje “adianta” cripto de um cliente com o saldo de outro deixa de poder fazer isso, porque o ativo de cada um é identificável e intocável.
Para a mesa OTC que hoje opera “no caixa”, com a cripto dos clientes na mesma carteira que a própria, a segregação é a mudança mais concreta: ela exige refazer a estrutura de carteiras, as contas bancárias e o registro contábil. É também a mudança que mais protege o cliente, porque encerra a possibilidade de ele virar credor numa quebra, como aconteceu em casos internacionais. O que as resoluções dizem sobre isso está em Resoluções BCB 520 e 521: o que muda na operação com cripto.
O que a auditoria independente confere?
Que as demonstrações refletem a realidade e que os controles funcionam. Uma PSAV autorizada tem as demonstrações contábeis auditadas por auditor independente registrado na CVM e habilitado pelo Banco Central, no mesmo padrão das instituições financeiras. O auditor confere, entre outras coisas:
- A existência e a titularidade dos ativos, inclusive a cripto em custódia, com conferência de saldos on-chain;
- A segregação entre ativos próprios e de clientes;
- A avaliação dos criptoativos no balanço e o critério de reconhecimento de resultado;
- Os controles internos, o programa de prevenção à lavagem e a gestão de riscos;
- A consistência entre a contabilidade e os reportes regulatórios e fiscais.
Auditoria contínua, não anual
A auditoria não é só de fim de ano. O auditor acompanha os controles ao longo do período, e a PSAV precisa ter os registros prontos para conferência a qualquer momento, o que muda a rotina contábil de anual para contínua. É outro ponto em que a mesa de hoje e a instituição de amanhã se diferenciam.
O último item é o que liga a auditoria à camada fiscal: a DeCripto que a prestadora entrega à Receita, com as operações individualizadas de cada cliente e os saldos anuais, precisa bater com o balanço que o auditor assina. Uma PSAV com contabilidade num número e DeCripto em outro tem um problema de auditoria antes de ter um problema fiscal.
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Como a cripto entra no balanço de uma PSAV?
De dois jeitos, conforme de quem é. A cripto de clientes em custódia é registrada de forma segregada, sem integrar o ativo próprio da prestadora, com controle individualizado por cliente e por ativo. A cripto de tesouraria, que a prestadora usa para liquidez, para fazer mercado ou como reserva, é ativo dela, avaliado pelo critério definido na regulamentação contábil aplicável, com o resultado das variações reconhecido conforme o padrão.
O resultado da intermediação, o spread entre compra e venda, as taxas e as comissões, é receita da prestadora, e o resultado das operações com a cripto de tesouraria é ganho ou perda dela. Os dois entram no lucro real, e o lucro real permite compensar perdas e deduzir despesas, o que na PSAV inclui a estrutura inteira de conformidade. O custo dessa estrutura está em PLD, KYC e Cosif: o custo real de conformidade de uma mesa P2P.
O que fazer com a contabilidade anterior?
Fechar antes de pedir. O Banco Central analisa o histórico da operação, e o pedido de autorização exige demonstrar que a empresa tem condições de operar no padrão exigido. Uma mesa que chega ao processo com três anos de operações sem escrituração, sem DeCripto da pessoa jurídica e sem apuração do resultado tem um passivo que a estrutura futura não apaga.
A sequência que a Blue aplica nas operações que atende:
- Reconstituir as operações desde o início, por cliente e por ativo, com o custo de cada posição;
- Apurar o resultado de cada período e regularizar o IRPJ e a CSLL em aberto;
- Entregar as DeCriptos da pessoa jurídica em atraso, com a multa reduzida pela entrega espontânea;
- Escriturar o passado no padrão que a empresa tinha, com a cripto reconhecida corretamente, e preparar a transição para o Cosif;
- Montar a segregação antes do pedido, para que o balanço de abertura da PSAV já nasça separado.
É esse trabalho que o modelo PSAV as a Service da Blue entrega: a camada fiscal e contábil, integrada à estrutura regulatória e bancária dos parceiros. A mesa não precisa montar um departamento de contabilidade de banco; precisa de quem já faz isso e conecta ao resto. O contexto do prazo está em só 5 pedidos de licença no BC a 6 semanas do prazo.
Quais erros aparecem na contabilidade de quem vai pedir autorização?
Na Blue Consult, que atende empresas do ecossistema cripto desde 2018, os erros de contabilidade que aparecem antes de um pedido de autorização são estes:
- Cripto de clientes no ativo da empresa, sem segregação;
- Resultado reconhecido só na conversão em reais, ignorando permutas;
- Nenhuma DeCripto da pessoa jurídica, ou entregue sem individualizar os clientes;
- Lucro presumido numa operação que já deveria estar no real;
- Balanço anual como único registro, sem balancetes que sustentem uma transição para o Cosif.
Conteúdo educativo não substitui serviço técnico. O enquadramento regulatório é análise jurídica, e a contabilidade no padrão Cosif exige profissional habilitado para a instituição supervisionada.
Perguntas frequentes
PSAV precisa de contabilidade no padrão Cosif?
Sim. A Resolução BCB 519/2025 inclui a adoção do padrão contábil Cosif entre os requisitos do pedido de autorização, e a PSAV autorizada escritura como instituição supervisionada: plano de contas padronizado, balancetes ao Banco Central, demonstrações auditadas e segregação dos ativos de clientes.
O que é segregação patrimonial na PSAV?
É manter os recursos e os ativos dos clientes separados dos da prestadora, em contas e carteiras apartadas e em registros contábeis próprios, de forma que o patrimônio de cada um seja identificável a qualquer momento. A Resolução BCB 520/2025 trata a segregação como regra de funcionamento da SPSAV.
PSAV precisa de auditoria?
Sim. As demonstrações contábeis da PSAV autorizada são auditadas por auditor independente, no padrão das instituições financeiras, com conferência dos ativos em custódia, da segregação, dos controles internos e da consistência com os reportes regulatórios e fiscais, como a DeCripto.
Minha mesa nunca teve contabilidade de cripto: dá para pedir autorização?
Só depois de fechar o passado. O Banco Central analisa o histórico da operação, e o pedido exige demonstrar condições de operar no padrão exigido. A sequência é reconstituir as operações, apurar o resultado, entregar as DeCriptos da pessoa jurídica em atraso e escriturar antes de protocolar.
Monte a contabilidade que o Banco Central vai ler
A contabilidade de uma PSAV é a de um banco pequeno, e ela começa pelo passado que a mesa ainda não fechou. Se a sua operação vai pedir autorização ou operar sob estrutura autorizada e a escrituração não está pronta, fale com a Blue sobre o PSAV as a Service. A camada fiscal e contábil é a nossa desde 2018. Imposto de Renda Cripto com Método.
Contador (CRC-DF 028007-O), fundador e CEO da Blue Consult, o maior escritório do Brasil especializado em Imposto de Renda de criptoativos. Desde 2018, a Blue processou mais de 10.000 declarações e analisou mais de R$ 5 bilhões em ativos digitais. Mychel também é cofundador da Tokeniza e mantém o maior acervo de conteúdo sobre IR Cripto do país, com mais de 1.700 vídeos publicados.